Nota:

Versão digital (e parcial), a título de amostra.
Todos os direitos reservados ©
Título registrado ©
Conteúdo registrado na Biblioteca Nacional ©

Cena 5 — Um verdadeiro homem de verdade

A coisa poderia ter parado aí, mas não parou. Um pouco depois, pelos idos de 1972-73, foram os três morar num sítio que tinham em Guaratiba, perto do Rio. O sítio era o sonho da mãe do Juva: uma “casa no campo” — grande, com galinheiro, viveiro de pássaros, uma casa bonita, toda branca, cercada por uma grama vasta e um caminho de pedra que fazia umas curvas e que partia da porta principal e seguia todo ondulante até a piscina, e ao lado da piscina um terraço, e esse terraço tinha um caramanchão onde o Juvenal fazia churrasco para os amigos, porque o sítio vivia cheio de amigos, que chegavam à hora do almoço e só iam embora à noite, bem depois de o Juvinha estar dormindo.

Foi o presente que o Juvenal deu à mulher assim que se casaram, em 1967. Reformá-lo, decorá-lo e transformá-lo num paraíso completo era o grande objetivo e divertimento dos dois. Quando o sítio surgiu, o jovem casal sem filhos morava no primeiro apartamento, o da Delfim Moreira. No fim de semana, em vez de irem à praia, iam ao sítio. Chique.

Mudaram-se nos finais de 1968 para São Paulo, para um belo e amplo apartamento em Higienópolis — época em que, segundo ela, o Juvenal estava ganhando dinheiro e precisava estar em São Paulo para ganhar mais dinheiro ainda. Para o tormento da pequena, linda e ingênua paulistinha de Birigui, interior paulista, o jovem casal começou a frequentar lugares ricos e uma sociedade endinheirada, do tipo que tem casas com mordomos. Juvenal, sempre muito charmoso e a fumar o seu cachimbo, e a menina Biriguinha, despassarada e abobalhada, mas linda e linda. Às sextas-feira, disse-lhe um dia a mãe do Juva, quando ele lhe pediu que contasse coisas daquela época, ela pegava um fusquinha cor bege que tinha, pegava a Dutra e ia para o sítio. Ia sozinha para preparar o jantar, porque o Juvenal ia mais tarde, e de avião. Muito chique.

O sítio era o rito sagrado das sextas-feiras à tarde com retorno no domingo à noite — rito que mantiveram durante os quatro apartamentos que alugaram, até 1972, quando o Juvenal, com dinheiro no bolso, decidiu finalmente comprar o primeiro, em final de construção, na Rua Barão da Torre, entre a Garcia d’Ávila e a Maria Quitéria, em frente a um pronto-socorro infantil que talvez ainda esteja lá, o Urgil. Para economizar dinheiro e esperar as obras, foram os três morar um tempo no sítio.

Numa específica tarde de domingo — uma agradável tarde, segundo ela, que nunca mais se esqueceu dessa “agradável tarde” —, os dois jogavam pôquer na varanda, havia horas, com os vizinhos de Guaratiba, e o Juva brincava dentro de um cercadinho, ao lado da mesa. Quando ela se virou, em algum momento, para ver como é que ele estava — e ele estava tranquilo, brincando consigo mesmo e confortado pelo burburinho dos adultos —, a primeira coisa que notou foi que havia algo errado com o joelho direito do garoto, enorme, inchado como uma bola, e quente, e vermelho. Era a sua primeira crise inflamatória.

Bastante nervosos, e dando-se conta de que a hérnia e os tendões da mão e dos pés poderiam não ser eventos isolados; intuindo, enfim, que dali vinham mais histórias, acabaram num pronto-socorro em Campo Grande, onde, é claro, não conseguiram descobrir nada. E como é que o Juva estava? Ele não chorava nem demonstrava qualquer desconforto, mas o joelho estava lá. A bola estava lá.

Qual era a única referência bem sucedida que tinham? O Dr. Bulcão, o doutor da mão, aquele que não sabia o que eram pés. E joelhos? Será que ele saberia o que eram joelhos? Retornaram ao sítio porque era no sítio que estavam morando, e o Juva nem consegue imaginar o que deve ter sido aquela noite, em que somente ele dormiu. No dia seguinte estavam no Rio de Janeiro, no Bulcão, que indicou um ortopedista de cujo nome, como dizia Cervantes, não é ele, o Juva, que não quer se lembrar, mas seu pai, que o odiou até o fim da vida. O médico achou que seria muito produtivo fazerem uma biópsia naquele joelho direito. O Juvenal, na época, diante da ideia de se fazer uma biópsia no joelho do filho para se poder descobrir o que é que com mil diabos tinha aquele guri, amarrotou a testa e disse que era desnecessário. (Por quê? Porque os dois já tinham algumas pistas de que ele havia nascido com artrite reumatoide infantil? E por que havia nascido assim? Porque sim. Ou porque o seu pai, que sempre foi muito “confiante em si mesmo”, achou que sabia mais do que o médico?) O Juvenal disse que era desnecessário mas, contrariado, consentiu.

No dia da cirurgia, logo cedo, o Juvenal alertou a equipe médica do Hospital Samaritano acerca do fato de que o Juva era muito resistente à anestesia, como ele pôde observar nas três cirurgias anteriores: a da hérnia e as duas das mãos, e o que fizeram então foi anestesiá-lo aos bocadinhos, o que durou toda a manhã. Quando o Juva já estava grogue e finalmente apagou, cortaram-lhe o joelho (e ele parou de nadar para olhar o corte); um corte de cinco centímetros. Retiraram do joelho alguma amostra de tecido (cartilagem?), fecharam o buraco, o menino acordou e entregaram ao pai a conta do hospital, que era assim: um tubo de oxigênio; um pernoite com acompanhante (o Juvenal abriu a boca para falar mas não falou nada; resolveu esperar pelos outros itens da lista); três caixas de categute, aquela linha especial para costurar suturas, feita de tecido animal para ser absorvida pelo organismo (o talho aberto no joelho, hoje, não tem mais do que cinco centímetros, e não se sabe quanto media o corte num joelho com dois anos de idade); um kit de roupa (“Roupa?!”, murmurou o Juvenal para a sua mulher, ali ao lado); refeição para o acompanhante (“Mas ninguém comeu aqui!”, disse ele, dessa vez mais alto. “Não comeu porque não quis...”, disse o gerente de contas. “Mas pode comer ainda... Quer?” “Eu quero é sair daqui!”, gritou o pai); aluguel da sala de cirurgia; cirurgião; auxiliar; enfermeira; anestesista e instrumentador. O Juvenal pagou tudo, rangendo os dentes, e escapuliu dali com a mulher numa mão e o Juva no colo. Dias depois chegou o resultado da biópsia: artrite reumatoide infantil.

Antes de lerem esse resultado, entretanto, foram parar num reumatologista, que, através de um mero exame de sangue, detectou a artrite apenas observando o alto índice de uma determinada taxa. Serão os eosinófilos? E receitou um tratamento à base de cortisona, que deveria aliviar as dores que o Juva provavelmente sentia, embora ele não tenha, agora, a memória da dor. Não demorou muito e abandonaram o método, bem como o médico.

***

E ele se lembra de tudo isso? Não, não se lembra, apenas imagina. Inspira bastante ar, mergulha mais fundo e tenta ver se alguma imagem surge diante de seus olhos. Até que vê uma, e nítida. O Juva está, talvez, com uns três ou quatro anos, no consultório de um outro médico, o dr. Wertzmann, que protagonizou uma revolução em seu tratamento, trocando a cortisona (ou seria o cortisona?) pela aspirina diária, por injeções de Solganol, que era uma solução de pó de ouro (sim, pó de ouro), e muita fisioterapia. O Juva sentado na marquesa, com uma perna esticada, a assistir ao médico enfiar uma agulha em seu joelho bastante inchado e ir retirando lá de dentro um líquido amarelado. Tem na memória a sensação térmica do ar condicionado daquele consultório e do cheiro de coisa limpa daquela sala de espera, um cheiro de álcool. O que ele não daria por mais algumas lembranças?... E o que sentia quando o médico lhe enfiava a agulha?

Não era propriamente uma dor, mas não era agradável; era como se o seu joelho estivesse se esvaziando, como um balão se esvazia. E seu pai o recompensava sempre que ele não chorava, dando-lhe um boneco do tipo Falcon (uma espécie de Barbie para meninos). O Juva nunca chorava, e já não sabia o que fazer com tantos Falcons. Bom, ele sabia. Inventava-lhes uma vida inteira de grandes feitos e cambalhotas e peripécias, tudo o que ele não conseguia fazer muito bem. Lembra-se da emoção de ganhar o Falcon, de chegar em casa e ver que vida daria àquele Falcon. Aquele Falcon teria muitas aventuras, subiria e desceria de montanhas de almofadas, correria, voaria e depois, machucado e vencido, morreria sua morte de super-herói — e isso equivalia mais ou menos ao momento em que iriam o Juva e o pai novamente ao médico, passadas umas semanas. E ele veria mais uma vez seu joelho sendo esvaziado, como um balão, e ele não choraria, e um novo Falcon surgiria, para subir e descer montanhas de almofadas, correr, voar e depois, machucado e vencido, morrer sua morte de super-herói. O Juva nunca chorava no médico, mas seus Falcons, na hora da morte, eles, sim, choravam...


E o pai, gaúcho de Júlio de Castilhos, próximo de Cruz Alta, lhe dizia que um homem de verdade não chora nunca. Como o Juva nunca chorava quando o médico lhe enfiava uma agulha no joelho para retirar dali um líquido amarelado, logo o Juva era um homem de verdade. E saíam os dois do consultório e ganhavam as ruas e entravam no carro. E o Juva no banco de atrás, com um bandeide no joelho e olhando para as pessoas pela janela, sentia, e sentia que todas as pessoas na rua sabiam disso, que ele era, não um super-herói, porque estes acabavam chorando, mas um verdadeiro homem de verdade.