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Cena 5 — Um verdadeiro homem de verdade

A coisa poderia ter parado aí, mas não parou. Um pouco depois, pelos idos de 1972-73, foram os três morar num sítio que tinham em Guaratiba, perto do Rio. O sítio era o sonho da mãe do Juva: uma “casa no campo” — grande, com galinheiro, viveiro de pássaros, uma casa bonita, toda branca, cercada por uma grama vasta e um caminho de pedra que fazia umas curvas e que partia da porta principal e seguia todo ondulante até a piscina, e ao lado da piscina um terraço, e esse terraço tinha um caramanchão onde o Juvenal fazia churrasco para os amigos, porque o sítio vivia cheio de amigos, que chegavam à hora do almoço e só iam embora à noite, bem depois de o Juvinha estar dormindo.

Foi o presente que o Juvenal deu à mulher assim que se casaram, em 1967. Reformá-lo, decorá-lo e transformá-lo num paraíso completo era o grande objetivo e divertimento dos dois. Quando o sítio surgiu, o jovem casal sem filhos morava no primeiro apartamento, o da Delfim Moreira. No fim de semana, em vez de irem à praia, iam ao sítio. Chique.

Mudaram-se nos finais de 1968 para São Paulo, para um belo e amplo apartamento em Higienópolis — época em que, segundo ela, o Juvenal estava ganhando dinheiro e precisava estar em São Paulo para ganhar mais dinheiro ainda. Para o tormento da pequena, linda e ingênua paulistinha de Birigui, interior paulista, o jovem casal começou a frequentar lugares ricos e uma sociedade endinheirada, do tipo que tem casas com mordomos. Juvenal, sempre muito charmoso e a fumar o seu cachimbo, e a menina Biriguinha, despassarada e abobalhada, mas linda e linda. Às sextas-feira, disse-lhe um dia a mãe do Juva, quando ele lhe pediu que contasse coisas daquela época, ela pegava um fusquinha cor bege que tinha, pegava a Dutra e ia para o sítio. Ia sozinha para preparar o jantar, porque o Juvenal ia mais tarde, e de avião. Muito chique.

O sítio era o rito sagrado das sextas-feiras à tarde com retorno no domingo à noite — rito que mantiveram durante os quatro apartamentos que alugaram, até 1972, quando o Juvenal, com dinheiro no bolso, decidiu finalmente comprar o primeiro, em final de construção, na Rua Barão da Torre, entre a Garcia d’Ávila e a Maria Quitéria, em frente a um pronto-socorro infantil que talvez ainda esteja lá, o Urgil. Para economizar dinheiro e esperar as obras, foram os três morar um tempo no sítio.

Numa específica tarde de domingo — uma agradável tarde, segundo ela, que nunca mais se esqueceu dessa “agradável tarde” —, os dois jogavam pôquer na varanda, havia horas, com os vizinhos de Guaratiba, e o Juva brincava dentro de um cercadinho, ao lado da mesa. Quando ela se virou, em algum momento, para ver como é que ele estava — e ele estava tranquilo, brincando consigo mesmo e confortado pelo burburinho dos adultos —, a primeira coisa que notou foi que havia algo errado com o joelho direito do garoto, enorme, inchado como uma bola, e quente, e vermelho. Era a sua primeira crise inflamatória.

Bastante nervosos, e dando-se conta de que a hérnia e os tendões da mão e dos pés poderiam não ser eventos isolados; intuindo, enfim, que dali vinham mais histórias, acabaram num pronto-socorro em Campo Grande, onde, é claro, não conseguiram descobrir nada. E como é que o Juva estava? Ele não chorava nem demonstrava qualquer desconforto, mas o joelho estava lá. A bola estava lá.

Qual era a única referência bem sucedida que tinham? O Dr. Bulcão, o doutor da mão, aquele que não sabia o que eram pés. E joelhos? Será que ele saberia o que eram joelhos? Retornaram ao sítio porque era no sítio que estavam morando, e o Juva nem consegue imaginar o que deve ter sido aquela noite, em que somente ele dormiu. No dia seguinte estavam no Rio de Janeiro, no Bulcão, que indicou um ortopedista de cujo nome, como dizia Cervantes, não é ele, o Juva, que não quer se lembrar, mas seu pai, que o odiou até o fim da vida. O médico achou que seria muito produtivo fazerem uma biópsia naquele joelho direito. O Juvenal, na época, diante da ideia de se fazer uma biópsia no joelho do filho para se poder descobrir o que é que com mil diabos tinha aquele guri, amarrotou a testa e disse que era desnecessário. (Por quê? Porque os dois já tinham algumas pistas de que ele havia nascido com artrite reumatoide infantil? E por que havia nascido assim? Porque sim. Ou porque o seu pai, que sempre foi muito “confiante em si mesmo”, achou que sabia mais do que o médico?) O Juvenal disse que era desnecessário mas, contrariado, consentiu.

No dia da cirurgia, logo cedo, o Juvenal alertou a equipe médica do Hospital Samaritano acerca do fato de que o Juva era muito resistente à anestesia, como ele pôde observar nas três cirurgias anteriores: a da hérnia e as duas das mãos, e o que fizeram então foi anestesiá-lo aos bocadinhos, o que durou toda a manhã. Quando o Juva já estava grogue e finalmente apagou, cortaram-lhe o joelho (e ele parou de nadar para olhar o corte); um corte de cinco centímetros. Retiraram do joelho alguma amostra de tecido (cartilagem?), fecharam o buraco, o menino acordou e entregaram ao pai a conta do hospital, que era assim: um tubo de oxigênio; um pernoite com acompanhante (o Juvenal abriu a boca para falar mas não falou nada; resolveu esperar pelos outros itens da lista); três caixas de categute, aquela linha especial para costurar suturas, feita de tecido animal para ser absorvida pelo organismo (o talho aberto no joelho, hoje, não tem mais do que cinco centímetros, e não se sabe quanto media o corte num joelho com dois anos de idade); um kit de roupa (“Roupa?!”, murmurou o Juvenal para a sua mulher, ali ao lado); refeição para o acompanhante (“Mas ninguém comeu aqui!”, disse ele, dessa vez mais alto. “Não comeu porque não quis...”, disse o gerente de contas. “Mas pode comer ainda... Quer?” “Eu quero é sair daqui!”, gritou o pai); aluguel da sala de cirurgia; cirurgião; auxiliar; enfermeira; anestesista e instrumentador. O Juvenal pagou tudo, rangendo os dentes, e escapuliu dali com a mulher numa mão e o Juva no colo. Dias depois chegou o resultado da biópsia: artrite reumatoide infantil.

Antes de lerem esse resultado, entretanto, foram parar num reumatologista, que, através de um mero exame de sangue, detectou a artrite apenas observando o alto índice de uma determinada taxa. Serão os eosinófilos? E receitou um tratamento à base de cortisona, que deveria aliviar as dores que o Juva provavelmente sentia, embora ele não tenha, agora, a memória da dor. Não demorou muito e abandonaram o método, bem como o médico.

***

E ele se lembra de tudo isso? Não, não se lembra, apenas imagina. Inspira bastante ar, mergulha mais fundo e tenta ver se alguma imagem surge diante de seus olhos. Até que vê uma, e nítida. O Juva está, talvez, com uns três ou quatro anos, no consultório de um outro médico, o dr. Wertzmann, que protagonizou uma revolução em seu tratamento, trocando a cortisona (ou seria o cortisona?) pela aspirina diária, por injeções de Solganol, que era uma solução de pó de ouro (sim, pó de ouro), e muita fisioterapia. O Juva sentado na marquesa, com uma perna esticada, a assistir ao médico enfiar uma agulha em seu joelho bastante inchado e ir retirando lá de dentro um líquido amarelado. Tem na memória a sensação térmica do ar condicionado daquele consultório e do cheiro de coisa limpa daquela sala de espera, um cheiro de álcool. O que ele não daria por mais algumas lembranças?... E o que sentia quando o médico lhe enfiava a agulha?

Não era propriamente uma dor, mas não era agradável; era como se o seu joelho estivesse se esvaziando, como um balão se esvazia. E seu pai o recompensava sempre que ele não chorava, dando-lhe um boneco do tipo Falcon (uma espécie de Barbie para meninos). O Juva nunca chorava, e já não sabia o que fazer com tantos Falcons. Bom, ele sabia. Inventava-lhes uma vida inteira de grandes feitos e cambalhotas e peripécias, tudo o que ele não conseguia fazer muito bem. Lembra-se da emoção de ganhar o Falcon, de chegar em casa e ver que vida daria àquele Falcon. Aquele Falcon teria muitas aventuras, subiria e desceria de montanhas de almofadas, correria, voaria e depois, machucado e vencido, morreria sua morte de super-herói — e isso equivalia mais ou menos ao momento em que iriam o Juva e o pai novamente ao médico, passadas umas semanas. E ele veria mais uma vez seu joelho sendo esvaziado, como um balão, e ele não choraria, e um novo Falcon surgiria, para subir e descer montanhas de almofadas, correr, voar e depois, machucado e vencido, morrer sua morte de super-herói. O Juva nunca chorava no médico, mas seus Falcons, na hora da morte, eles, sim, choravam...


E o pai, gaúcho de Júlio de Castilhos, próximo de Cruz Alta, lhe dizia que um homem de verdade não chora nunca. Como o Juva nunca chorava quando o médico lhe enfiava uma agulha no joelho para retirar dali um líquido amarelado, logo o Juva era um homem de verdade. E saíam os dois do consultório e ganhavam as ruas e entravam no carro. E o Juva no banco de atrás, com um bandeide no joelho e olhando para as pessoas pela janela, sentia, e sentia que todas as pessoas na rua sabiam disso, que ele era, não um super-herói, porque estes acabavam chorando, mas um verdadeiro homem de verdade.

Cena 4 — O Juva de mão aberta

O Juva já está nadando há algum tempo. Uma vez que se começa, entra-se num outro ritmo e o tempo ganha outra dinâmica. Mas tudo em seu corpo dói. Ao fim do dia anterior já lhe doía, e nesse dia ainda lhe dói. No entanto, enquanto estiver nadando — deixando-se flutuar e arrastar pelo movimento da água —, sabe que menos coisas vão doer. Doem-lhe o tornozelo direito, o joelho esquerdo, a articulação coxofemoral direita e o cotovelo direito. Quando sair da piscina, vão doer menos. Aquele dia não poderia ser melhor para ele pensar na vida e tentar nadar nas lembranças que tem (que acredita ter...) dos seus primeiros dias e meses.

***

O Juva nasceu o terceiro filho de seu pai e o primeiro filho de sua mãe, que percebeu, passados poucos dias de seu nascimento, que alguma coisa não ia bem, de tanto que o menino chorava em sua ainda curta vidinha. Moravam, em 1970, na Rua Redentor, em Ipanema, num apartamento alugado, onde o Juva nasceu e onde sua mãe passou a maior parte da gravidez. “Uma rua pequenina e linda, repleta de árvores, próxima à Praça Nossa Senhora da Paz. Apartamento fofo, em estilo colonial, um por andar, de frente”, disse-lhe sua mãe, quando lhe pediu detalhes. Antes de ele nascer ela diz que já sabia ser um homem, e ser, portanto, um Juvinha. E todos a enchiam de mimos nas grandes festas que havia entre os vizinhos do prédio, e um deles era o jornalista João Saldanha, que, nas suas incríveis reuniões regadas a uísque, contava com a presença imbatível do Juvenal, sempre a contar piadas, e com a graça de sua mulher, que todos conheciam por “Biriguinha”, gravidinha e um encanto para os olhos de todos os homens.

E nasceu. Os bebês choram, sim, mas o Juva chorava mais. Chorou durante dois meses sem parar. E então, aos sessenta dias de sua diminuta existência (segundo seu pai, que tem uma memória que Nossa Senhora..., no dia 11 de agosto de 1970), sua mãe afinal percebeu que a dor vinha era da virilha. Operaram-no de uma hérnia inguinal — um corte, a retirada da hérnia, assunto liquidado, não há cicatriz. A hérnia surgiu só de um lado, mas o médico quis ver se não havia um projeto de hérnia a se formar do outro lado, e era só cortar do outro lado para ver, ora. Não, não havia. Aquilo é que devia ser a causa da dor, porque o piolho parou de chorar e sossegou.

Os pais é que não sossegavam. Em finais de 70 o casal de nômades, há cinco anos juntos, já estava no quarto apartamento, todos alugados. O primeiro, em 1967, na Rua Delfim Moreira, na esquina com a José Linhares; o segundo, em São Paulo, Higienópolis, em finais de 68; o terceiro, para onde o Juva foi depois de nascer, na Rua Redentor, mas o dono morreu e a filha decidiu vender, e o Juvenal, aplicando dinheiro na Bolsa de Valores, não queria comprar nada, só alugar. E alugaram mais um, no Leblon, na Almirante Guilhem — prediozinho antigo, ao feitio de sua mãe, dois quartos, sala grande, sol pela manhã, vista para a praia. Isto é 1971, e faltavam dois meses para o Juva fazer um ano.

Passados uns dias de sossego, sua mãe percebeu que alguma coisa não ia bem com as mãos do pequeno. “Elas não abrem...”, dizia ao Juvenal, enquanto lavava, no banho, com uma escovinha de dentes, a sujeira que começou a se depositar nas dobrinhas dos seus dedinhos curvadinhos. (É preciso cuidado para não se usarem somente diminutivos quando se falar desse Juvinha...) “E ele chora quando eu tento abrir os dedos...”, disse a mãe. Levaram-no a um médico, o dr. Bulcão, especialista em mão (rima involuntária), que verificou que ele havia nascido com os tendões curtos — os tendões dos dedos das mãos e dos pés. Por quê? Porque sim. Decidiu-se que uma outra cirurgia seria feita, dessa vez nas mãos, e seria uma mão de cada vez (como fugir a este cacófato?). Quanto aos pés, ainda não representavam grande empecilho, mas as mãos... E o pai do Juva dizia que o dr. Bulcão, de tão especializado em mãos, declarava sempre: “Eu não sei o que são pés...”.

Sua mão esquerda foi operada aos dez meses de idade. É o que mostra a foto, a mão espalmada, toda aberta, e, partindo do centro da palma para o cotovelo, o gesso, ficando para fora do gesso apenas a segunda metade dos dedos. Da cirurgia na mão direita não há fotos, mas seu pai disse que as duas mãos foram operadas antes do primeiro ano. O procedimento cirúrgico foi cortarem os tais tendões curtos, de modo a que os dedos pudessem estender-se totalmente. A contrapartida desses cortes e do consequente alongamento foi os dedos não conseguirem realizar o movimento contrário até o fim: fecharem-se totalmente por si mesmos; é preciso que a outra mão faça o trabalho. Para dar aquele murro na cara do Fofinha o Juva teve de ir fechando, com a mão esquerda e discretamente, todos os dedos da mão direita, um por um, e enquanto isso o Fofinha lhe ia provocando e o Juva lhe pedindo que parasse. Assim que a mão direita ficou pronta — fechada, dedo a dedo —, o Fofinha recebeu o grande murro e caiu. A marca do dente do Fofinha está até hoje ali, no nó do dedo.


Seu histórico cirúrgico poderia ter parado por aí, e os seus problemas estariam então resolvidos: a hérnia extirpada e as mãos funcionando — não tão bem, vá lá, mas pegando e soltando coisas, como qualquer criança faria. Com as mãos abertas, o Juva se tornou alegre, educado e gentil, embora, segundo sua mãe, ainda retraído. Suas mãos, na verdade, funcionavam na infância bem melhor do que funcionam hoje. Parece que a tendência daquilo que ele tinha, e que não sabiam o que era, é essa: perda da maleabilidade. Há fotos suas, com quatro ou cinco anos, com todos os dedos esticados — bem como os cotovelos, totalmente esticados. Não é o caso de hoje. Mas o Juva não está no “hoje”; está ainda mergulhado no “antigamente da infância”, e por essas águas nadará uns bons quilômetros, ou então se afogará.

Cena 3 — Uma ideia de pai e um motor desgovernado

Uma ideia de pai surgiu agora à sua memória, dentro d’água, neste começo de treino. Vai nadar meus mil e quinhentos metros com custo e paciência, e se lembrar desta história, também passada dentro d’água, mas uma outra água e de um outro tempo. A bem da verdade e do rigor cronológico, não apenas ainda não começou a nadar, como ainda está nascendo. Está nascendo há alguns minutos, e devagar. Se adiantou no tempo e na lembrança algumas cenas de colégio, é porque já começa a se familiarizar com o inevitável vaivém da contação das histórias. Ao outro vaivém, o da piscina, já tanto se habituou que nem dá por ele. Se avança alguns anos no tempo para poder se lembrar desta próxima história, bagunçando na aparência e na sua cabeça uma cronologia que começa, na aparência, a se esboçar, é para que nesta lembrança — talvez uma das mais difíceis — a figura de seu pai já esteja bem menos embaçada.

A coisa se passa num acampamento na Ilha da Gipóia, em Angra dos Reis, durante o feriado de 7 de setembro de 1979 — o Juva com nove anos. Foram seu pai, seu irmão Bubble, mais novo três anos, e seus irmãos por parte de pai, Reinaldo, mais velho nove anos, e Carolina, mais velha quinze anos, e ele. E ainda estavam a Valéria, então namorada do Reinaldo, o Mário, então marido português da Carolina, e a Bia, então namorada de seu pai. Crê que aquele foi seu primeiro acampamento.

(O segundo, lembra agora, e faz aqui um parêntese, aconteceu na Ilha Bela, e foi enlouquecedor devido aos mosquitos. Não sabiam que a Ilha Bela era uma espécie de quartel general de todos os mosquitos tropicais. Não sabiam de nada, e mal avançaram um bocadinho, afastando-se da beira-mar, depois de ancorar o barco, e as pernas, dos joelhos para baixo, se cobriram de mosquitos, e o formigamento crescia, e as picadas se multiplicavam, e a dor começou, e o desespero, e depois já não havia mais dor; havia apenas uma sensação de peso nas pernas, e inchaço, e cansaço. Tentaram montar as barracas, montaram até, mas não se conseguia fazer nada; não se conseguia conversar, beber, comer, ler, olhar o mar, namorar, explorar o terreno, caçar bichinhos, não se conseguia fazer nada, a única coisa que se fazia em terra era balançar os braços na altura das canelas, para espantar os demônios, que eram, é claro, imunes a todos os tipos de repelentes. O desespero tomou conta de todos, e a tal ponto que desmontaram as barracas e, picados dos pés à cabeça, picaram as mulas.)

Na Ilha da Gipóia não havia mosquitos como na Ilha Bela. Para Angra foram de carro, e para a ilha foram com um barqueiro que fazia por lá serviços, um tal Jamanta. O desembarque já foi, em si, uma grande aventura, porque a embarcação do Jamanta, pelo porte, não podia se aproximar demais da praia, tendo de permanecer além da arrebentação. Levavam barracas de camping, malas, “isopores” cheios de comida e ainda, esvaziado e dobrado, o velho bote de borracha de seu pai, a motor, que se enchia com uma bomba mecânica acionada pelo pé. Como não havia cais, os adultos desembarcaram toda a tralha, e também ele e o Bubble — tudo isso por cima das cabeças e das ondas.

 No dia seguinte ao da chegada, pela manhã bem cedo, o Juva e o Bubble começaram uma ladainha cujos versos eram assim: “Paiêee, a gente quer andar de barco... Vamos? Vamos?”. Havia uma caça submarina combinada para a parte da tarde, entre os adultos, para quando o seu exausto irmão Reinaldo — exausto com o desembarque, com as ordens do pai, com os caprichos da Valéria e com a montagem do acampamento — acordasse finalmente.

O pai Juvenal, decidido a não contrariar os pequenos, e acreditando que assim ficaria livre à tarde para pescar, encheu sorrindo o barco de borracha, e puseram-se dentro d’água — o Juva e o Bubble a bordo e o pai do lado de fora, a empurrá-los para depois da arrebentação. Quando já estavam além das ondas, o mar já bem menos sacudido, o pai, ainda fora do barco, ligou o motor. E aí foi a merda. O motor daquele barco era cheio de truques e caprichos — bem como o pai, que de vez em quando, não se sabe por quê, ligava o motor de dentro d’água, ordenando ao Juva e ao Bubble que ficassem sempre bem próximos à proa. Ele virava o painel do motor para si, puxava a cordinha da ignição, o motor ligava-se e, como estava em ponto morto, apenas o motor funcionava, não o hélice (sim, o irmão Reinaldo ensinou ao Juva ser esta palavra, no universo marinho, masculina, e no universo aéreo, feminina). Ouviam o ronco, o pai subia a bordo, engatava a marcha, o hélice começava a girar e então passeavam pelos sete, pelos dezessete mares.

Naquela manhã, no entanto — o centro da história está aí —, não se sabe por que razão (a posição em que o colocaram na mala do carro?), o motor, mesmo desligado, estava engatado na primeira marcha, como acontece às vezes com o câmbio dos carros. O pai, que costumava checar e rechecar tudo, não checou nem rechecou nada, e, quando puxou a corda da ignição, quando o motor se pôs a funcionar, por estar virado ao contrário, e engatado, a articulação que sustenta o hélice — e que permite que se desça e se suba o hélice da água — foi impelida com violência para cima, atingindo a face interna de sua coxa e subindo até a barriga, onde houve de fato o corte. Em outras palavras, o hélice começou a girar dentro d’água e subiu para a tona, e o pai do Juva ali, justamente ali, atrás do barco, de frente para o motor, com o hélice desgovernado bem na altura da sua barriga. Muitos anos depois o Reinaldo lhe disse que o pai, naquele dia, quase havia sido castrado, pois, por alguns centímetros (e esse foi o maior risco, de fato), a região genital teria sido atingida, resultando num ferimento muito mais grave.

O Juva percebeu que alguma coisa estava errada porque o pai os olhou aflito, os dois sentadinhos nos gomos do barco, a esperar que ele terminasse com aquela coisa chata de ligar o motor e finalmente subisse. Perceberam que o barco havia começado de repente a avançar, mas que, também de repente, tinha parado. E começaram a assistir, dali de dentro, uma luta acontecendo do lado de fora, o pai fazendo caras grotescas, a se debater dentro d´água, diante do motor, e a gritar que ficassem quietos e se segurassem nas cordinhas laterais. Os dois não sabiam a razão daquela confusão, não entendiam de ignição, de marchas em ponto morto ou marchas engatadas. Quando o Juva viu que aquela confusão de espuma e borbulhas que se agitava à volta do pai estava escura, de um vermelho escuro, e quando viu as mãos do pai cheias de sangue tateando o painel de controle, sentiu o esôfago esquentar. E, se antes o Juva não estava paralisado, porque estava longe de entender o que quer que fosse, naquele instante sentiu que todo o seu corpo se havia enrijecido. Percebeu que seu pai, ao mesmo tempo em que tentava, ali dentro d’água, se manter longe do alcance do hélice e se erguer a uma altura tal que pudesse apertar o botão de desligamento total da máquina — um botão vermelho que, com a girada do motor, havia ido parar do lado oposto, diante dos meninos —, tentava também levantar a barra do hélice de modo a retirá-la totalmente de dentro d’água, sob pena de o barco desgarra-se dele e sair andando a toda velocidade com duas crianças dentro, uma com nove e outra com seis anos de idade, mar afora.

Toda a luta não deve ter durado um minuto, porque o pai afinal conseguiu, num impulso com as pernas, chegar ao ansiado botão vermelho e, com a força de uma porrada, desligá-lo. O motor morreu, ele escorregou lentamente para dentro d’água e ficou ali boiando, de costas, encurvado e parecendo estar com as mãos na barriga. O Juva saiu do seu transe e começou a acenar e a gritar, do barco para a praia. Os seus gritos de nada adiantaram. Passado um tempinho, ele mesmo, o pai, levantou a cabeça da água, reuniu as forças que tinha, pegou no barco e foi puxando lentamente em direção à areia.

A partir daí a história lhe escapa. O que sabe contou-lhe o Reinaldo, que dormia quando foi acordado pelo Mário, marido de sua irmã, dizendo esbaforido que o Juvenal estava com a barriga dilacerada pelo hélice do motor. “O Juvenal magoou-se!”, gritou ele, em português europeu. Meteram-se no barco o Reinaldo e o pai, deitado e com uma gaze bem apertada contra a barriga (uma gaze, não! Agora o Juva se lembra: era um paninho “Perfex”), e lançaram-se ao mar. O destino: qualquer posto de saúde em Angra dos Reis, o ponto mais próximo. Navegaram durante cinquenta minutos — o pai a apertar o “Perfex” já totalmente vermelho-escuro contra a barriga, e parece que já não saía mais sangue... — e chegaram ao que o Reinaldo mais tarde chamaria de “o tenebroso posto de saúde de Angra dos Reis”, onde, lá pelas tantas, surge um sujeito, que poderia ser o médico, mas o Reinaldo diz que até hoje duvida, e esse sujeito deita o pai moribundo numa maca, retira o “Perfex”, olha para o ferimento e, sem qualquer cerimônia ou piadinha desanuviadora, enfia lá dentro o dedo. “Dói?”, pergunta.

O Juvenal, que nasceu no Rio Grande do Sul, na cidade de Júlio de Castilhos, próximo de Cruz Alta; o Juvenal, que era o que se chamava “um gaúcho”, embora já tenha sido bem mais típico do que se tornou; o Juvenal, que fazia churrascos memoráveis, bebia o seu chimarrão, era machão e, até certo ponto — um ponto dentro dos limites do razoável —, era também machista, um machista manso; o Juvenal, que teve uma vida difícil, que praticamente assistiu, ainda guri, à morte de sua mãe, Pedrolina, que tomou veneno para ratos na sua frente e caiu morta ao pé de uma árvore; o Juvenal, que viveu uma grande parte da vida com seu pai, Ulisses, nome de guerreiro, que lhe ensinou a ser duro e a ser forte; a ser “Juvenal” — ou seja, a não se deixar abater por pouco; o Juvenal, que foi para o Rio de Janeiro e foi no Rio de Janeiro um bocadinho de tudo: de motorista de táxi a lutador de boxe; de bancário a dono de empresa de publicidade, e sempre foi, lá à sua maneira, um super-pai; o Juvenal, cujo universo, além do trabalho, era o dos acampamentos, dos barcos, dos carros e das caminhadas, dos abismos, das torrentes e dos desertos; o Juvenal, que afinal se chamava Juvenal, e não é qualquer um que se pode chamar Juvenal; o Juvenal, respondendo à pergunta do suposto médico, disse assim, vendo estrelas: “É... Assim, desse jeito, com o seu dedo aí dentro, dói um pouquinho, sim...”.

O médico retira então o dedo, e, ato contínuo, o sangue avoluma-se e sobe em jato, sujando a maca, o chão e a roupa do doutor, que diz: “Ops... Vamos dar uns pontinhos, mas estamos sem anestesia aqui no posto de saúde de Angra, por isso vai doer um pouquinho mais do que já doeu...”. O pai do Juva conta que o Reinaldo, nesse instante do jorro do sangue, teve de se afastar porque ficou tonto. Deve ter doído bem mais do que “um pouquinho mais”, e a dor, se calhar, até levantou o astral do Juvenal, que saiu de lá muito lépido e muito fagueiro da vida, em direção ao barquinho de borracha, em direção à Ilha da Gipóia, em direção ao seu acampamento e ao seu feriadão, sentindo-se mais vivo do que nunca, mais vivo do que todos os outros vivos juntos.


Quando chegaram à Ilha, e ainda antes de ser “desembarcado”, o pai (e as palavras são do Reinaldo), diante da cena que flagrou ao longe, a barraca já desmontada pelas mulheres, pelo Mário, pelo Juva e pelo Bubble, e tudo pronto para que voltassem para casa, o Juvenal, qual um “macho dos pampas, ou como um corsário, de pé na proa do barquinho, prestes a tomar posse de alguma Ilha do Tesouro perdida nos mares do Pacífico, bradou: ‘Última forma!’”, palavras do Reinaldo. E, por cima dos protestos de todos os filhos, determinou que tudo ficasse como antes, que armassem a barraca de novo porque o feriado estava apenas começando. Não iriam voltar para casa só por causa de um hélice que por um bocadinho quase o havia castrado e que em seguida havia girado em alta velocidade dentro de sua barriga, próximo do estômago; barriga agora toda costurada, roxa e inchada. Não, não iriam voltar. Ele estava bem, só precisava era ficar deitadinho sobre um saco de dormir, na areia e à sombra, a olhar para o mar durante o dia e a procurar alguma coisa muito particular que só ele sabia o que era, à noite, naquele céu todo ele borbulhante de estrelas.